Substantivo: flexão de gênero

substantivo flexão de gênero
 
 Olá! Esta é a terceira aula do Módulo II – Classes Gramaticais. E hoje nós vamos estudar a flexão de gênero do substantivo.
 
Vamos lá!
 
 
  Flexão de gênero   

 O que é flexão de gênero? 

 
flexão de gênero do substantivo nos indica se a palavra é masculina ou femininaIsso vale, inclusive, para substantivos que se referem a coisas e objetos (ou seja: que não têm sexo biológico): "o lápis" (é palavra masculina); "a mesa" (é palavra feminina), "o mar" (é palavra masculina).
 
Portanto, quando falamos de gênero (em termos gramaticais), estamos nos referindo ao gênero gramatical da palavra (e não ao sexo biológico). Não existe "mesa homem" nem "mesa mulher", mas a palavra "mesa" é do gênero feminino. 
 
 
 

 O uso do artigo  

 
Como foi possível perceber nos exemplos anteriores, substantivos masculinos são aqueles que aceitam o uso do artigo "o" (o menino, o professor, o governador, o amor, o João), enquanto substantivos femininos aceitam o artigo "a" (a menina, a professora, a governadora, a tristeza, a Maria). 
 
lápis, por exemplo, é apenas um objeto sem sexo biológico definido (não pertence ao sexo masculino nem feminino, ou seja: não existe lápis "homem", nem lápis "mulher"), mas a palavra lápis é masculina, já que utilizamos o artigo "o" (ninguém diz "pegue a lápis", "me empreste essa lápis", "veja aquela lápis"). 
 
 

 A desinência de gênero 

 
Geralmente os substantivos masculinos terminam com a letra "o" (filho, aluno, boneco), enquanto os substantivos femininos terminam com a letra "a" (filha, aluna, boneca). Essa letrinha, que define o gênero dos substantivos no final das palavras, é chamada de desinência de gênero, pois se une ao radical da palavra para indicar se ela é masculina ou feminina (filh + o = filho; filh + a = filha).
 
Porém, nem sempre isso acontece. Existem, por exemplo, palavras terminadas em "a" que não são masculinas: "o cometa", "o mapa". Nesses casos, "cometa" e "mapa", mesmo terminando com a letra "a", são palavras masculinas, pois aceitam o uso do artigo "o". E, por causa disso, a letrinha "a" que aparece ao final dessas palavras não é desinência de gênero (estudaremos o que ela é no conteúdo de Estrutura e Formação de Palavras). 
 
 E ainda existem palavras que não terminam nem com "a", nem com "o". Nesses casos, a definição do gênero continua sendo o uso do artigo "o" (para palavras masculinas) e o uso do artigo "a" (para palavras femininas). Exemplos: "o atlas", "o ônibus", "o diamante", "o tribunal" (todas essas palavras são masculinas).
 

 Substantivos biformes 

 
São substantivos biformes aqueles que, em relação à flexão de gênero, apresentam duas formas: uma no masculino e outra no feminino. 
 
Isso pode acontecer mudando-se apenas a terminação da palavra (gato/gata; menino/menina; embaixador/embaixatriz), ou então mudando-se completamente a palavra por outra totalmente diferente (pai/mãe; boi/vaca; genro/nora zangão/abelha). Nesse segundo caso, os substantivos são classificados como substantivos heterônimos.
 

 Substantivos uniformes  

 
São aqueles que apresentam somente uma forma, tanto no masculino quanto no feminino. A palavra "estudante", por exemplo, é usada tanto no masculino ("o estudante falou comigo") quanto no feminino ("a estudante falou comigo"). Logo, "estudante" é um substantivo uniforme. 
 
Por sua vez, os substantivos uniformes podem ser subdivididos nas seguintes classificações: 
 
 
 1   substantivos uniformes comuns de dois gênero;
 2  substantivos uniformes  sobrecomuns;
 3  substantivos uniformes epicenos
 
 
Vamos, agora, entender as diferenças entre eles:
 
  

 1) Substantivo Comum de dois Gêneros   

 
É o substantivo uniforme cujo gênero é facilmente identificado pelo uso do artigo "o" (para masculino) ou artigo "a" (para feminino).

Exemplos: o estudante (masculino), a estudante (feminino).
 
Outros exemplos: o/a jovem; o/a adolescente; o/a colega, o/a artista, o/a intérprete, o/a dentista... 

 PARA NÃO ESQUECER: "comum de dois gêneros" => posso usar os dois artigos ("o estudante", "a estudante").
 

 2) Substantivo Sobrecomum  

 
É o substantivo uniforme que tem gênero fixo,  tanto para homem quanto para mulher. Dessa forma, o sexo biológico não pode ser identificado pelo uso do artigo, mas sim apenas pelo contexto.
 
Exemplo: o substantivo "criança" sempre será uma palavra feminina. Afinal, não existe "o criança", "um criança", "esse criança" etc. Porém, mesmo tendo essa forma fixa, a criança pode ser um menino (sexo masculino) ou uma menina (sexo feminino). Tudo depende do contexto. Veja:
 
João Pedro é uma criança feliz 
(menino)
 
Letícia é uma criança feliz 
(menina) 
 
  Outros exemplos: a testemunhao cônjuge, a vítima, a pessoa
 
Ronaldo é a testemunha do caso.
(homem)
 
Maria é a testemunha do caso. 
(mulher) 
 
 Logo, se não houver um contexto claro e bem definido, não sabemos se estamos tratando de um homem ou de uma mulher. Exemplo:
 
A vítima disse que foi assaltada ontem.

 
 Nesse caso, a palavra "vítima" é feminina (pois utilizamos o artigo feminino: "a vítima"), mas não sabemos se a vítima é homem ou mulher, pois os dados do contexto são insuficientes. 
 
A vítima, que é um rapaz de 20 anos, disse que foi assaltada ontem. 
 
 Agora sim sabemos que a vítima é do sexo masculino.
 
 

 3) Substantivo Epiceno  

 
É usado especificamente para se referir a animais,  insetos etc. Nesse caso, para diferenciar o masculino do feminino, é necessário usar, junto ao substantivo, as palavras “macho” ou “fêmea”.

Exemplo: jacaré macho, jacaré fêmea.
  
 

  Alguns casos que geram dúvidas   

 
 

Masculino ou feminino? 

 
ALFACE é palavra feminina  ("a alface").
COUVE-FLOR é palavra feminina ("a couve-flor).
AGUARDENTE é palavra feminina ("a aguardente").
 CHAMPANHA é palavra masculina ("o champanha")
 
  

Qual é o feminino? 

 
 

Masculino

Feminino

frei

sóror

bispo

episcopisa

padre

madre

judeu

judia

cavalheiro

dama

cavaleiro

amazona

cônsul

consulesa

maestro

maestrina

profeta

profetisa

cônego

canonisa

réu


  
 

  A flexão de gênero e a mudança de sentido   

 
Em alguns casos, a flexão de gênero também muda o significado de um substantivo. Veja: 
 
Buenos Aires é a capital da Argentina.
(a capital = sede)
 
Não tenho o capital necessário para criar a nova empresa. 
(o capital = dinheiro)
 
 
Comprei um novo rádio
(o rádio = aparelho de som)
 
CBN é a minha rádio favorita.
(a rádio = estação emissora) 
 
 
A grama está molhada. 
(a grama = gramínea)
 
 Vou comprar duzentos gramas de queijo 
(o grama = unidade de peso) 
 
 
Observação: "grama", no sentido de "unidade de peso" (massa), sempre é usado no masculino. Portanto, pela gramática normativa, seria inadequado dizer, por exemplo, "vou comprar duzentas gramas de queijo".  
 
 

 Gênero não marcado 

 
Em termos gramaticais, o gênero masculino é considerado o gênero "não marcado". Isso significa dizer que o gênero masculino, em determinados contextos, pode ser utilizado de forma genérica para englobar toda uma coletividade, incluindo seres do sexo masculino e feminino. Veja:
 
O brasileiro adora samba. 
 
Numa frase como essa, apesar de "brasileiro" ser um substantivo do gênero masculino, ele se refere a toda a população brasileira, incluindo homens e mulheres. Logo, não apenas homens, como também mulheres brasileiras adoram samba. 
 
O professor entrou na sala e observou que os alunos estavam em silêncio.
 
Nesse outro caso, "alunos" é uma palavra masculina, mas está sendo empregado de forma genérica, referindo-se tanto a alunos quanto a alunas.
 
Por outro lado, o gênero feminino é a forma marcada: sempre será utilizado para se referir a seres do sexo feminino. Portanto, se falarmos que "o professor entrou na sala e observou que as alunas estavam em silêncio", podemos concluir que só existem alunas nessa sala (não existe nenhum menino).  
 

 Linguagem inclusiva    

 
Algumas correntes da ciência Linguística consideram que o uso do gênero masculino como forma "não marcada" é uma forma de exclusão. Logo, para que as alunas não se sintam excluídas, o mais adequado, segundo essa linha de pensamento, seria dizer: "O professor entrou na sala e observou que os alunos e as alunas estavam em silêncio". Ou então, utilizar um substantivo coletivo ("observou que a turma estava em silêncio"). 
 
Vale ressaltar que fenômenos sociolinguísticos como esses e outros relacionados à discussão de linguagem, inclusão e gênero de fato existem (não podemos negar isso) e ainda estão em debate, mas não fazem parte da variante padrão da língua portuguesa. Portanto, se uma prova de concurso público prever, em seu edital, o uso da norma padrão, é preciso seguir a gramática normativa, que reconhece apenas os gêneros masculino e feminino, sendo o masculino o gênero utilizado para referências genéricas ou coletivas.  
 

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BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 39.ed. rev. e ampl. atual. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2019. 

CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. 48.ed. Companhia Editora Nacional, 2020. 

CUNHA, Celso; LINDLEY, Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 6.ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2013.  


LIMA, Carlos Henrique da Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 48.ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2010. 

SACCONI, Luiz Antonio. Nossa Gramática Completa. 34.ed. São Paulo: Matrix, 2020. 

Para consultar as referências gerais do site, que embasam todos os conteúdos, acessar a página Nova Gramática On-line (Referências).

 
 

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