Diário - É necessário decorar a flexão de grau dos adjetivos?

Campo Grande-MS, 18 de fevereiro de 2026

Caro Quebec, 

Quarta de cinzas. Fim do feriado de Carnaval. De volta ao trabalho.

A minha última atualização no site foi a revisão do conteúdo de adjetivos, publicado em dois posts: um para apresentar a definição e a classificação; outro focado na flexão de gênero, número e grau.

E então, eu me dei conta de algo interessante: nem eu me lembrava da flexão de grau dos adjetivos, já que fazia anos que não dava essa aula. E isso apenas prova que decorar a nomenclatura não é algo tão relevante assim, especialmente no ensino básico (mas para concursos públicos a coisa muda totalmente).

A grande questão é que a nomenclatura é tão somente uma ferramenta de categorização. Saber quando um adjetivo está flexionado no grau superlativo relativo de inferioridade é útil para quem trabalha com pesquisa acadêmica. Aí sim faz total sentido o foco na nomenclatura para a análise técnica. Afinal, em se tratando de pesquisa, temos que "dar nomes aos bois". 

Entretanto, entulhar o aluno do ensino básico com informações do tipo o superlativo absoluto sintético de "amargo" é "amaríssimo" não leva a lugar algum, a menos que ele queira atrair olhares de curiosidade ao chegar a casa e dizer: "mãe, esse café está amaríssimo". No ano seguinte (ou antes disso) o infeliz terá se esquecido de absolutamente tudo o que decorou. Óbvio que é interessante que a flexão de grau seja apresentada, bem como a sua classificação e formas eruditas, mas entendo que isso não deve ser o foco da aula, nem das avaliações. Um aluno nota 10 não deve ser aquele que decorou que "melhor" e "pior" são adjetivos expressos na forma sindética, mas sim aquele que entendeu o que é o adjetivo no contexto da modalização, considerando o seu aspecto valorativo e qualificador em qualquer tipo de texto. 

Em se tratando de concursos, aí a coisa muda completamente. Apesar de pouco relevante, saber o grau dos adjetivos pode definir se você será ou não aprovado e classificado:

(FGV/PM-SP/2024 - Soldado) Assinale a frase cujo adjetivo mostra o grau em que está empregado classificado corretamente. 

A) O melhor amigo do homem é o uísque. O uísque é o cachorro engarrafado. / Superlativo relativo de superioridade. 

B) Nada custa tão caro como ser pobre. / Superlativo absoluto analítico. 

C) Um sorriso é a distância mais curta entre duas pessoas. / Comparativo de superioridade. 

D) Todas as pessoas são imensamente iguais. / Comparativo de igualdade. 

E) Nosso país é menos rico do que todos os demais. / Superlativo relativo de inferioridade. 

Questões desse tipo existem aos montes. E, sim, é uma questão "decoreba" que apenas avalia se aquele candidato decorou a nomenclatura. E enquanto essas questões existirem, será preciso decorar classificações e nomenclaturas. É a regra do jogo, meu caro!

Logo, eu sou um professor realista quando saio em defesa de uma gramática mais funcional e discursiva no ensino básico justamente por entender que a "decoreba" é algo ineficiente. Porém, também sou realista ao advertir que o domínio da nomenclatura ainda continua sendo importante em determinados contextos, especialmente na área dos concursos públicos. E é por isso que eu tenho o dever de explicar, aqui no site, a flexão detalhada do grau do adjetivo, por mais conteudista que isso seja, pois alguém, em algum lugar, está precisando dessa informação. 

Veredito: é necessário decorar a flexão de grau dos adjetivos?

- para professores do ensino básico, eu diria: "apresente o conteúdo completo para os alunos (incluindo toda a parte de flexão dos adjetivos), mas tenha em mente que entender o papel do adjetivo no texto é mais importante do que a nomenclatura." 

- para professor de cursos preparatórios, eu diria: "a nomenclatura pode ser muito importante, dependendo do concurso e da tradição da banca; faça o dever de casa e analise o histórico de provas antes de montar a sua aula".

A propósito, o gabarito da questão é a letra "A". 

* * * 

Termino de escrever este texto escutando Golden Brown (The Stranglers). Descobri hoje esta música, depois de escutar várias vezes sua versão "slowed" em reels de Instagram. Uma valsa nostálgica que me remete a... Elephant Guns (Beirut). Oh, Capitu, é você? 

Até a próxima.

Vinícius  

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